Plic, plic, plic
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2009)
Abri os olhos e vi ratos, um beco imundo e um cano por onde saía mijo e merda.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E vi Milena com seus cabelos drapejados pelo vento e senti o perfume dela me inundando as narinas.
Abri os olhos e vi gente matando gente, estupros, pedófilos e tarados.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena tenta me fazer sambar um samba e eu morro de achar graça com a minha inapetência para danças.
Abri os olhos e vi o Dalton Trevisan jogando pôquer com o Charles Bukowski e dois travestis defecando num cantinho numa esquina.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena pede para eu comprar um celular e eu invento uma esfarrapada desculpa e a gente se queda rindo da minha bobagem.
Concluo que é melhor sonhar de olhos fechados a encarar a triste realidade de olhos abertos.
E plic, plic, plic... volto eu a fechar os olhos para nunca mais abri-los.
Thursday, July 16, 2009
Tuesday, July 14, 2009
Poesia
Amor para Raimundo
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2008)
Entrei no ônibus e torci para ter um lugar vago onde eu pudesse
sentar meus ossos.
Tinha um lugar vago bem ao lado de uma gorda mal-feita.
Sua loirice era vulgar demais e suas
unhas aparentavam uma nojeira.
Sentei-me e juro que incomodado estava.
Encostar por esbarrão naquela mulher era um exercício de
comunhão bacteriológica.
Eis que o celular dela tocou. Era Raimundo.
Raimundo deveria ser o namorado ou esposo. E pelo monossilabismo
da conversa que eu captava, tentando interpretar o que Raimundo
falava, presumi que ele estava se desculpando por uma
cafajestada qualquer.
Conversa findada. A “loira” suspirou fundo e disse baixinho: é
foda... De pronto ela tirou de sua bolsa um bombom de chocolate
“Sonho de Valsa” e escreveu em um pedaço de papel com letras
garrafais: AMOR PARA RAIMUNDO.
Ela olhou o bombom, olhou o que escrevera no pedaço do papel e
disse para mim: esse Raimundo!!! De repente ela amassou o
papelzinho, jogando-o pra fora do ônibus; e comeu o bombom.
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2008)
Entrei no ônibus e torci para ter um lugar vago onde eu pudesse
sentar meus ossos.
Tinha um lugar vago bem ao lado de uma gorda mal-feita.
Sua loirice era vulgar demais e suas
unhas aparentavam uma nojeira.
Sentei-me e juro que incomodado estava.
Encostar por esbarrão naquela mulher era um exercício de
comunhão bacteriológica.
Eis que o celular dela tocou. Era Raimundo.
Raimundo deveria ser o namorado ou esposo. E pelo monossilabismo
da conversa que eu captava, tentando interpretar o que Raimundo
falava, presumi que ele estava se desculpando por uma
cafajestada qualquer.
Conversa findada. A “loira” suspirou fundo e disse baixinho: é
foda... De pronto ela tirou de sua bolsa um bombom de chocolate
“Sonho de Valsa” e escreveu em um pedaço de papel com letras
garrafais: AMOR PARA RAIMUNDO.
Ela olhou o bombom, olhou o que escrevera no pedaço do papel e
disse para mim: esse Raimundo!!! De repente ela amassou o
papelzinho, jogando-o pra fora do ônibus; e comeu o bombom.
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