Aug 25, 2010

O Mickey (conto)

Uma voz atrás de mim ressoa. Tal como o esganiçar triste de um cachorro sem dono.
Beirando a nulidade sentimental, como se num trombetear resfolegante de anjos combalidos,
ela fala: “poxa... mas você não presta pra porra nenhuma”.



E quem não presta era ele, endiabrado conquistador de ninfetas da periferia.
Bem que a mãe dela a avisara: “esse tipo de homem, minha filha, a gente não quer nem pra
nossas inimigas”. Mas o frescor da juventude, aliado à idiotia agalopada que faz da maioria com menos de 20 anos ter bosta ao invés de cérebro na cabeça, a impediu de enxergar a roubada em que ela estava se metendo.



Voltemos à discussão.



A menina tentava se exaltar para, talvez, passar pelo telefone a exatidão do que ela estava achando de toda aquela palhaçada que ele aprontara. Mas sua voz minguava a cada instante e o efeito ficava evidentemente inverso (mesmo para eu que sequer escutei a voz dele): ele crescia em argumentação. Um mestre brilhante da retórica, descendente direto de Sócrates e que conseguia com o mínimo de argumentos, convencer ela que ele estava com a razão de coisas vis como ter fodido com outra menina e a engravidado, ter 'ficado' com um sem-número de 'piriguetes' em bailes de tecno-brega e ter esquecido a amada na porta do shopping no exato dia em que eles fariam 4 meses de namoro.



Eis que num momento da discussão ela se exasperou e disse em um tom calmo e pontiagudo: “na nossa relação, você é o Mickey e eu sou a Pateta. sempre”. Ela desligou o telefone, suspirou e disse algo mais ou menos assim: “homem é assim mesmo, mas pior é sem eles. esse filho de uma puta eu não largo”.



Mulheres tem complexo de inferioridade, acho eu. Fazer-se de babaca, de escada para uma pessoa escrota qualquer não é empresa para mim, por exemplo. Duas recomendações para as do sexo feminino: cuidado com essas falsas armadilhas arquetípicas de promessas de 'te amo' e sejam mais discretas no ônibus, pois eu posso estar por perto, brechar vossa conversa e poetar sobre a porra toda.

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