Belém, Setembro de 2007. Algo de muito ruim, quase trágico, começa a acontecer em todo o Estado do Pará: as plantações de mandioca brava definham e toda a produção de maniva* é perdida para uma praga de fungo e outra praga de um inseto qualquer.
* Maniva são as folhas da mandioca cujo preparo é o principal ingrediente da maniçoba, um dos principais pratos da culinária Paraense.
Para os não-Paraenses ou os não-iniciados nas coisas do Norte, em Outubro, em Belém, acontece uma grande festa religiosa chamada Círio de Nazaré que congrega cerca de 2.000.000 de pessoas na capital do Pará. Durante o Círio o consumo de maniçoba aumenta muito, pois faz parte da tradição do festejo fazer desse prato que demora cerca de sete dias para ser preparado, como se todo um ritual fosse instaurado para, em concomitância, preparar-se o prato e orar pela Virgem de Nazaré. Agora tentem imaginar Belém, sem o cheiro característico de maniçoba emanando de quase todas as casas durante o mês de Outubro.
Pois a praga acima citada que devastou toda a produção de maniva do Pará dizimou parte da pobre economia dos plantadores de mandioca brava, bem como a moral dos Belenenses. Sem maniçoba, sem orgulho Paraense. E o caos, já no finalzinho do mês de Setembro começara a se instalar na pedra do Ver-O-Peso, quando as pessoas davam com a cara na parede ao constatarem que não aportava um grama de maniva sequer. “Como assim, não haverá maniva esse ano?”, perguntava um. “E a nossa maniçoba?”, indagava outro. Um gigantesco burburinho tomou conta das travessas Belenenses. Já estamos no início de Outubro e todos só tinham uma certeza: esse seria o Círio mais minguado e menos festejado de todos os tempos, pois sem maniçoba os espíritos não se mexeriam por uma Santa que estaria a abençoar milhões de estômagos “brocados”.
Certa celeuma tomou conta de Belém. Os principais jornais da cidade não se entendiam quanto à precisão das notícias. Ninguém mais sabia de mais nada. A sagrada maniçoba do Círio de 2007 já começa a se tornar lenda na boca de alguns pessimistas. E como não podia deixar de ser, logo aparecem os velhacos para proveito da situação tirar. Toda uma legião de bêbados, prostitutas, travestis, cheiradores de cola e segregados sociais se concentravam em peso na Praça Waldemar Henrique para, em conluio, esquematizar um possível cartel de traficantes de maniva. O esquema de tráfico e distribuição era assim: a maniva chegaria de barco vinda do Amapá e do Amazonas, desembarcaria naqueles trapiches e pequenos portos ao longo da Bernardo Sayão e Arthur Bernardes e seria estocada em lugares bem insuspeitos tais como alguns galpões antigos da Cidade Velha e na zona do Reduto que fica mais próxima da Companhia Docas do Pará. O esquema de distribuição e venda em Belém seria feito a critério de cada traficante.
A maniva, nessa época de escassez, chegou a ficar mais cara que maconha. E o Círio já está aí e o povo em desespero pagava os tubos de dinheiro para os traficantes por coisa pouca, tipo um ou dois quilos de maniva. Claro que a imensa maioria sequer teve acesso à iguaria. Um influente Belenense desembarcou por aqui justo na época do Círio e estranhou a falta da maniçoba e compreendeu a comoção. Do Reduto ao Guamá, da Cidade Velha ao São Braz e do Condor a Pedreira todos os ânimos estavam exaltados pela falta da maniçoba e um pequeno princípio de guerra civil começou a se instalar em Belém. A casa que preparava maniçoba era alvo da fúria culinária da circunvizinhança que por muito pouco, talvez por algo que não valesse nem o dinheiro que se gasta em um tacacá tomado nas proximidades do Boulevard Castilho França, tomava de assalto o preparado fervente das folhas da mandioca. Nem os apelos da cínica igreja católica foram suficientes para fazer do Círio de Nazaré de 2007, além de fracassado, violento. Matou-se por maniçoba, literalmente falando. De todos os pequenos traficantes de maniva que pululavam nos baixios da região portuária de Belém, nenhum fez grande fortuna. Todo o dinheiro que eles ganharam foi efêmero demais. Apenas um traficante do alto cartel, político antigo do Estado do Pará deu-se bem por conta da falta de maniva local. Uma súcia formada por figurões do Pará e do Amazonas, provou que a rixa entre os dois Estados acaba quando se entram na roda interesses por grana. E os velhacos fizeram um esquema quase internacional de transporte, distribuição e venda ilegais de maniva, burlando o fisco e a secretaria de agricultura dos dois Estados Nortistas.
O Círio, a corda e toda aquela bobagem católica foram por água abaixo. Como eu disse anteriormente: sem maniçoba, sem orgulho Paraense. E sem orgulho Paraense não se têm forças, nem motivos para se espremer em mil por uma procissão que ficara sem sentido. A economia de Belém sofreu grande abalo e é incerto que nos anos vindouros o Círio congregue tantas pessoas quanto em anos de outrora. Talvez tudo se comece da estaca zero tal qual há cerca de 200 anos. Incineram-se as súplicas e o motivo para se viver dos católicos.
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