Aug 19, 2010

Feto (conto)

(consultoria médico-científica da @brabul)

Ela estava deitada. Com a tez muito alva e as veias arroxeadas a lhe desenhar pequenas teias capilares de varizes pelo pescoço. Impávida, ela tinha uma cintura com boa pegada... ancas que cabiam certas nas mãos de qualquer homem que quisesse comer ela de quatro. Linda e nua, coberta por um lençol fino que deixava revelar detalhes dos seus seios. Dois pequenos bólidos que sustentavam os mamilos como se fossem o prêmio que Sísifo queria conquistar, mas nunca conseguiu. Suas formas, seu corpo juvenil, sua púbere vagina e púbis era o que mais o excitava. Cabelos negros escorregam por seu rosto e o toque suave da luz do pequeno, embora potente refletor da maca do necrotério lhe resplandecia mais ainda a beleza do seu corpo. Juan ficou em volta de Julia por algumas horas, estudando uma forma de chegar nela e lambuzá-la e fodê-la de forma que outras pessoas não o vissem. A cabeça de Juan simplesmente não alcançava os motivos pelos quais a conduta moralista da sociedade onde ele vivia não permitia relações sexuais entre vivos e mortos.



Do necrotério para a UTI um milagre se operava naquele local. Julia, considerada clinicamente morta, voltara a vida, embora encarcerada em seu próprio corpo, inerte, vítima de um severo acidente vascular cerebral que num primeiro momento tinha lhe falseado a vida, mas agora a condenava ao leito por tempo indeterminado: Julia estava em coma.



O coma dela era tão intenso que ela parecia desfalecida. Com um tubo respirador traquéia adentro, Julia ganhava um aspecto horrível, de se dar dó. Parecia mais uma boneca inerte, respirando e comendo e cagando e mijando por aparelhos. Embora sua família vivesse com a esperança quase nula de que ela voltasse às suas funções vitais básicas sem que fossem necessários tamanho aparato médico-tecnológico, ela estava morta o suficiente para deixar Juan com prazer, com um tesão incontrolável. E ele brechava Julia pela portinhola basculante do quarto 1235 do hospital. Na calada da noite dos corredores escuros que reverberavam o silêncio do ambiente, Juan se consumia em masturbação, imaginando estuprar o corpo sem vida de Julia. Ele só lamentava o fato dela embora parecer morta, estar quente.



A única coisa que era complexa na “relação” sexual entre um morto e um vivo era a penetração. Os músculos da vagina se contraem todos post mortem e a lubrificação natural das mulheres cessa, deixando a vagina sequíssima e intransponível. Para alguns necrófilos resta se valer de um expediente pouco ortodoxo: eles esfregam seus pênis na morta/o até gozar e depois lambuzam os dedos sujos com esperma dentro da vagina ou do ânus dos corpos que eles profanam. Talvez um método contraceptivo dos mais inteligentes: “ejacular” dentro de um corpo sem vida, cujo útero não mais poderia gerar uma vida.



Nove meses depois que Julia tinha entrado em coma ela dá a luz a um nenê que ninguém imaginava como teria sido concebido. Talvez Julia estivesse entrado em estado de coma grávida. Juan sabia da verdade sobre seu filho.

3 comentários:

fllavia said...

Mais um filho nasceu... sabes de todos os adjetivos para estes texto.Muito bom!

sara said...

Me lembre de Hable con ella...

Anonymous said...

Pois é, parece mesmo "Fale com ela" de Almodovar..