Escutei um diálogo na esquina da Henrique Gurjão com Benjamin Constant no bairro Reduto muito divertido, rápido e super coloquial: duas empregadas domésticas de duas casas (ou apartamentos) diferentes levavam os cachorros de suas madamas para passear de manhã cedo, fazerem cocô e xixi. Uma das empregadas era uma negrona tipo cabrocha do Nelson Cavaquinho, com direito a sovaco gordo e mal depilado, que alegremente estava a passear com um Schnauzer que mais parecia uma boneca de viado de tanta fitinha que ele tinha nos pelos.
A outra moça era uma pretinha toda empertigada. Parecia a porta-bandeira ganhadora do desfile de escolas de samba que anualmente aconetece no bairro da Pedreira. Ela passeava com um horripilante Pequinês, símbolo do status quo de mau gosto: como alguém pode achar bonito um cachorro com aqueles dentes inferiores curvados para cima e sobre os dentes superiores e além de tudo demodé?
O diálogo, ei-lo:
- Nega, você sabe dessas coisas...*
- O que mulher?
- Minha filha não tá de bucho daquele infeliz.
- Mas sua menina não é um bebê ainda?
- 14 anos! Mas aos 13 a brasa da buceta acende e aí a sorte anda com a gente ou o azar... No caso de Francivalda, o azar.
- E o pai do filho dela sabe?
- Uma pica! Ele tem uma moto-táxi e vive fazendo bico de ajudante de pedreiro.... aquilo toma um Corote arretado e vive socado nos bregas. Cheio de neguinha parecida com você atrás dele.
- Que nem comigo quando engravidei de Cipriana. 15 anos e o pai pouco se fodia para eu e ela. As carapanãs comendo as pernas da menina e aquele fela da puta não comprava um Boa Noite lá pra casa.
- Vixe, mulher.... eu me lembro das tuíras nas perninhas dela.
- E D. Leonora disse que esse cachorro viado que mais parece jerico de cigano (o Schnauzer) custa mais de R$1.000,00. Que ele vem com uma “pedigrinha”. Eu pensei: essa porra de cachorro não dura 10 minutos vivo na Terra Firme.
- (muitas risadas).
- E o meu cachorro dos dentes do Satanás (o Pequinês) que toma “iorgute” para cagar frouxo todos os dias. É muita frescura com esses cachorros. Eu só tomo “iorgute” quando fico doente e olhe lá.
- Que nem aquele PM que mora com mãe perto de mim. Ele só bebe coisa natural. Por isso que ele não peida e não bomba pica no cu com força.
- (mais risadas, inclusive eu estava a rir, discretamente, claro).
- Neguinha, vou indo subir. Ou o almoço de D. Leonora sai às 11:30h ou aquela mulher dá cunsca comigo.
- Tchau, Fia.
Nesse momento de despedida um cachorro cheira o ânus do outro e logo em seguida larga duas bolinhas de cocô fresco sobre a calçada. Nesse momento eu olho de soslaio para a Negrona e ela parte para cima da bosta com chinelos Havaianas gastos o sufiente para a beirada dos seus pés ficarem retintas de bosta de cachorro. Uma cena que classifiquei como contra-Macunaíma.
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