No último livro do Nelson Motta, uma deliciosa reunião de contos chamada “Força Estranha”, o autor narra um caso chamado “Conversas Roubadas”, onde ele cita que o Marçal de Aquino utilizava-se de métodos de “espionagem como não se quer nada”, para buscar enredos “roubados” nas ruas, nos ônibus e nas filas para suas estórias. Pois bem. Sou um desses ladrões de histórias alheias para transformá-las nas minhas estórias. Conto-lhes um episódio que aconteceu hoje de manhã no Tamoios, ônibus que percorre parte de Belém, capital do Pará.
Sentei-me na penúltima cadeira do referido ônibus. Imediatamente atrás de mim estava uma mulher de uns 40 anos muito maltratada pelo trabalho braçal que ela deve ter e pela péssima e precária condição que a vida dela a reservou. Um exemplar dignatário do que chamamos de “mas que porra é essa?”. Ele ostentava um celular chic de última geração, mas que custam uma pechincha quando parcelados de mil vezes. O detalhe grotesco era um adesivo do Palmeiras colado na parte externa do aparelho e que dava para ser enxergado a quilômetros de distância. De onde eu tomei o ônibus até o momento em que ela desceu foram quase 20 minutos onde eu pude pescar o colóquio que essa mulher inominada teve com seu esposo (ou namorado, ou amante, ou sei lá), visto que ela falava muito alto.
A conversa foi mais ou menos assim:
- Meu Amor, eu já tou a descer do ônibus. Diga logo o que você quer.
- (…)
- Não! Isso não! Eu não vou voltar pra casa a uma hora dessas pra gente... (risadas).
- (...)
- E preste atenção, Nego: Agenor vai passar aí pra buscar o blusão dele.
- (…)
- Deixe de besteira, Amor. Agenor já era. A fila andou e tou contigo. Mas aquele blusão do Agenor custou R$280,00 e eu não posso ficar com o blusão dele pra sempre. Foi ele quem comprou.
- (…)
- Hum, sei... Ai Nego... Assim eu fico arrepiada. Eu já lhe disse que sou só tua. Agenor e eu já não temos mais nada. Agora é “mim” e “ti”.
- (…)
- Não! Agora, não, e já te disse o porquê! De noite eu chego aí e te dou muito abraço.
- (…)
- Não... sete horas da noite é muito cedo. Meia-noite eu chego e te dou mil beijos.
- (…)
- É meia-noite mesmo e não reclame essa porra. Você terá tempo para ficar com suas raparigas e eu ralando no trabalho. Ainda chego cansada e tenho que fazer “nhem, nhem” com você.
- (…)
- É no trabalho que eu ralo e não em Agenor, seu filha de uma puta. Você quer fazer onda, é?
- (…)
- E não reclame que o crédito que estou gastando nessa ligação é meu. Você é lascado de pai e mãe, um infeliz das costas oca que não tem um puto furado no bolso e ainda reclama do crédito do celular.
- (…)
- Tou achando que você tá de fuleiragem com outra nega. Olhe, se eu te pegar furando com outra vagabunda eu torço seus cunhões...
- (…)
- Nego, tá chegando minha parada, vou desligar.
- (…)
- Desligue você primeiro.
- (…)
- Te amo também. Se preocupe com Agenor, não. E lave o blusão dele pra “eu”. Até meia-noite.
- (…)
- Te amo também. E não destrate Agenor, não. Beijos.
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
3 comentários:
Hilária essa estória...
Hahahahahaha.. ow comédia!!! ;D
Coitado do Agenor, sem o blusão, sem a mulher e ainda foi corno.
Post a Comment