(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2006)
“Linger on, your pale blue eyes” (Lou Reed)
Entrei em uma lanchonete com minha namorada.
Durante a fila do caixa notei que uma menina com grandes olhos azuis
chorava copiosamente.
Pensei: deve ter acontecido algo muito ruim.
E ela, numa olhada de soslaio, notou que eu a percebia.
Dei um tchauzinho e fiz uma careta boba qualquer.
Ela sorriu um riso bem tímido, mas que já trouxera algum alento para aquele mar de lágrimas que do olho dela escorria e borrava a maquiagem e a enfeiava.
Pensei em ir até ela e puxar alguma conversa fiada, contar uma piadinha, sei lá...
Mas eu estava acompanhado. E mulheres são, assim, meio misteriosas.
Melhor não, pensei. Depois isso vai acabar em confusão.
Saí da lanchonete de estômago cheio, de mãos dadas com ela e um pouco triste,
confesso, por ser frouxo demais.
Tuesday, July 28, 2009
Tuesday, July 21, 2009
Sacanagem
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2008)
Eu estava atravesssando a rua Padre Eutíquio em frente ao shopping center, quando de repente eu vi um interessante pequeno-colóquio entre um motoqueiro sem capacete com sua filhinha, uma menina de no máximo 4 anos, sentada na garupa da moto.
O pai: - Caralho!!! Sua mãe tá demorando demais. Ela tá de SACANAGEM!!!
A menina: - Pai, o que é SACANAGEM?
Eu estava atravesssando a rua Padre Eutíquio em frente ao shopping center, quando de repente eu vi um interessante pequeno-colóquio entre um motoqueiro sem capacete com sua filhinha, uma menina de no máximo 4 anos, sentada na garupa da moto.
O pai: - Caralho!!! Sua mãe tá demorando demais. Ela tá de SACANAGEM!!!
A menina: - Pai, o que é SACANAGEM?
Thursday, July 16, 2009
Plic, plic, plic
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2009)
Abri os olhos e vi ratos, um beco imundo e um cano por onde saía mijo e merda.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E vi Milena com seus cabelos drapejados pelo vento e senti o perfume dela me inundando as narinas.
Abri os olhos e vi gente matando gente, estupros, pedófilos e tarados.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena tenta me fazer sambar um samba e eu morro de achar graça com a minha inapetência para danças.
Abri os olhos e vi o Dalton Trevisan jogando pôquer com o Charles Bukowski e dois travestis defecando num cantinho numa esquina.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena pede para eu comprar um celular e eu invento uma esfarrapada desculpa e a gente se queda rindo da minha bobagem.
Concluo que é melhor sonhar de olhos fechados a encarar a triste realidade de olhos abertos.
E plic, plic, plic... volto eu a fechar os olhos para nunca mais abri-los.
Abri os olhos e vi ratos, um beco imundo e um cano por onde saía mijo e merda.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E vi Milena com seus cabelos drapejados pelo vento e senti o perfume dela me inundando as narinas.
Abri os olhos e vi gente matando gente, estupros, pedófilos e tarados.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena tenta me fazer sambar um samba e eu morro de achar graça com a minha inapetência para danças.
Abri os olhos e vi o Dalton Trevisan jogando pôquer com o Charles Bukowski e dois travestis defecando num cantinho numa esquina.
Plic, plic, plic...bati as pálpebras e fechei os olhos.
E Milena pede para eu comprar um celular e eu invento uma esfarrapada desculpa e a gente se queda rindo da minha bobagem.
Concluo que é melhor sonhar de olhos fechados a encarar a triste realidade de olhos abertos.
E plic, plic, plic... volto eu a fechar os olhos para nunca mais abri-los.
Tuesday, July 14, 2009
Amor para Raimundo
(Sidclay Calaça Dias, Belém, 2008)
Entrei no ônibus e torci para ter um lugar vago onde eu pudesse
sentar meus ossos.
Tinha um lugar vago bem ao lado de uma gorda mal-feita.
Sua loirice era vulgar demais e suas
unhas aparentavam uma nojeira.
Sentei-me e juro que incomodado estava.
Encostar por esbarrão naquela mulher era um exercício de
comunhão bacteriológica.
Eis que o celular dela tocou. Era Raimundo.
Raimundo deveria ser o namorado ou esposo. E pelo monossilabismo
da conversa que eu captava, tentando interpretar o que Raimundo
falava, presumi que ele estava se desculpando por uma
cafajestada qualquer.
Conversa findada. A “loira” suspirou fundo e disse baixinho: é
foda... De pronto ela tirou de sua bolsa um bombom de chocolate
“Sonho de Valsa” e escreveu em um pedaço de papel com letras
garrafais: AMOR PARA RAIMUNDO.
Ela olhou o bombom, olhou o que escrevera no pedaço do papel e
disse para mim: esse Raimundo!!! De repente ela amassou o
papelzinho, jogando-o pra fora do ônibus; e comeu o bombom.
Entrei no ônibus e torci para ter um lugar vago onde eu pudesse
sentar meus ossos.
Tinha um lugar vago bem ao lado de uma gorda mal-feita.
Sua loirice era vulgar demais e suas
unhas aparentavam uma nojeira.
Sentei-me e juro que incomodado estava.
Encostar por esbarrão naquela mulher era um exercício de
comunhão bacteriológica.
Eis que o celular dela tocou. Era Raimundo.
Raimundo deveria ser o namorado ou esposo. E pelo monossilabismo
da conversa que eu captava, tentando interpretar o que Raimundo
falava, presumi que ele estava se desculpando por uma
cafajestada qualquer.
Conversa findada. A “loira” suspirou fundo e disse baixinho: é
foda... De pronto ela tirou de sua bolsa um bombom de chocolate
“Sonho de Valsa” e escreveu em um pedaço de papel com letras
garrafais: AMOR PARA RAIMUNDO.
Ela olhou o bombom, olhou o que escrevera no pedaço do papel e
disse para mim: esse Raimundo!!! De repente ela amassou o
papelzinho, jogando-o pra fora do ônibus; e comeu o bombom.
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